Eu sei, eu não escrevo essa newsletter há um tempão. Mas como sempre foi um projeto totalmente sem compromisso, agora que tenho múltiplos compromissos esse aqui ficou mais sem compromisso ainda. Significa que, daqui pra frente, esta newsletter ficará ainda mais aleatória e sem revisão.

Se isso estiver te incomodando, sinta-se a vontade de ir até o final do email para se desinscrever. Deve ter algum link ou botão escrito “Unsubscribe”. Mas se você, por algum motivo, se interessa pelo o que passa pela minha cabeça, sinta-se em casa aqui! Pode até responder o email ou me mandar mensagem se quiser conversar com as vozes da cabeça do Ícaro.

Dito isso, vou dar algumas atualizações básicas da minha vida:

  • Consegui financiar uma casa pela Caixa Econômica Federal num preço que encaixou no orçamento, e por isso me mudei de casa aqui em Uberaba. Agora estou na casa própria (dá vontade de falar “Toma essa, chineses, eu também consigo”, mas tenho a ligeira impressão de que os jovens chineses que conseguem sua casa própria bem cedo têm condições muito mais facilitadas que as minhas). Por motivos de autismo em país capitalista dependente, ainda não estou tão feliz. Mas tenho certeza de que ficarei radiante daqui uns meses (ou talvez no ano que vem).

  • O financiamento da casa veio muito mais cedo do que Vanessa e eu tínhamos planejado, e por isso estamos em emergência financeira doméstica (tipo minha vida todinha, mas dessa vez o sustento da casa depende do meu trabalho).

  • Por conta da emergência financeira doméstica, para manter alguns sonhos ativos (tipo minha esposa poder estudar com calma para fazer sua transição de carreira sem pressa), precisei iniciar um regime de horas extras no meu serviço. Em dois dias da semana, eu fico no CAPS Infantojuvenil o dia inteiro. Por isso, a hidroginástica no CEMEA não tá rolando.

  • Surgiu uma oportunidade de eu fazer mestrado em Psicologia na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).

  • Fiz 28 anos de idade. Sou adulto há 10 anos, estou vivendo uma vida de adulto (né? Casado, trabalhando, financiei casa), mas não sei bem o que pensar sobre isso.

E enfim, hoje estou especialmente ansioso e por isso vim até aqui. Com a emergência financeira, acho que o garimpo de psicólogos para eu pensar em terapia continua impedida (ser psicólogo negro autista tem seu preço… Difícil eu confiar nos profissionais, e quando eu confio, não tenho dinheiro pra bancar).

Mas um casal de amigos achou uma atividade que parece ser legal. As mourning pages. Se você quiser saber mais, um desses meus amigos escreveu a ideia neste blog. Mas se você não quiser ler, é tipo um exercício em que você vai escrever o que tá passando pela sua cabeça, o fluxo de pensamentos mesmo. Eu não acho que fazer mais uma coisa que tenha instruções rígidas vai me fazer bem, então resolvi adaptar para meu estilo livre e escrever aqui nesta newsletter. E por isso hoje temos um…

Isso, um blá-blá-blá sobre o que tá passando na minha cabeça. (E se você veio pelo título procurando explicações sobre autismo, eu já fiz isso um monte anteriormente. Aqui você vai ver em primeira mão como funciona a cabeça de um autista e, pelo que venho sondado, é sim uma experiência compartilhada com muitas pessoas no espectro).

E sim, esse texto tem um monte de listas, lide com isso.

Agora, neste exato momento, o que mais está me deixando ansioso é a perspectiva de fazer mestrado este ano, em 2026. A decisão de tentar entrar no programa mestrado foi tomada e eu não me arrependo dela. Tenho muitos motivos para manter essa decisão:

  • Quando entrei na faculdade de psicologia, eu queria fazer pesquisa em psicologia. Meu sonho em psicologia não era necessariamente ser um psicólogo prático (embora, modéstia a parte, eu considere que eu me saio muito bem na função, dadas todas as limitações da profissão). Eu queria entender esse campo de conhecimento. Sinceramente, ainda quero. O caminho de graduação → mestrado → doutorado → pós-doutorados faz sentido para mim seguindo aquele sonho jovem. Se agora isso é possível, eu quero tentar.

  • Eu gosto de falar e explicar o que estou estudando. Então ser professor de faculdade é uma profissão que, apesar dos pesares, eu acho que vou gostar. Bom, meu atual emprego tá passando por um inferno organizacional e eu ainda consigo gostar de ser psicólogo, então provavelmente devo conseguir encarar as coisas ruins da Academia Brasileira.

  • Caso eu não consiga me tornar professor numa Universidade Federal, ainda vou receber 55% de aumento em relação ao meu salário-base por conta do plano de carreira dos servidores públicos da Prefeitura Municipal de Uberaba. Pensando no estado de emergência financeira, receber isso daqui uns 2 anos seria ÓTIMO!

  • Eu já estou trabalhando com saúde mental infantojuvenil, então com ou sem mestrado, eu vou estudar saúde mental infantojuvenil. Devo isso a todas as pessoas com questões de saúde mental que vão até o CAPS-IJ procurar ajuda.

Certo? Estabelecido que eu quero sim fazer mestrado, vou dizer o que me deixa ansioso: eu não estou me sentindo tão bem em fazer tudo o que quero fazer de uma vez só, me sinto pressionado por forças invisíveis (que são coisas da minha cabeça, provavelmente).

Quanto ao mestrado, minha decisão no início do ano foi: “não vou me esforçar tanto para fazer mestrado, mas se a oportunidade cair do céu, vou aproveitar”. Então, a oportunidade caiu do céu. Por conta de um intercâmbio entre a instituição em que trabalho e a UFTM, entrei em contato com uma professora do programa de pós-graduação em psicologia que me informou sobre o edital aberto para mestrado e me ajudou com informações de muitas outras coisas (mal sabe ela que esse apoio representa pra mim uma ponte sobre uma lagoa bem funda de problemas). Todo o caminho que antes era fechado para que eu pudesse pesquisar agora se mostra mais aberto. Basicamente agora eu tenho que:

  1. Organizar meu currículo lattes

  2. Fazer a prova de proeficiência em inglês (que não vai ser tão difícil pra mim, porque eu já estou bem proeficiente em inglês)

  3. Escrever o anteprojeto de pesquisa (que já tem um esqueleto bem definidinho, tema e tudo o mais… Eu vou poder pesquisar basicamente o que eu já trabalho, e tendo esse apoio de informações por esse intercâmbio do CAPSIJ com a UFTM, facilitou bastante)

Eu provavelmente vou dar conta de fazer tudo. Tenho até 30 de Abril, e hoje é 22 de Março. Mas minha cabeça funciona de um jeito infernal (quem diria que o transtorno do espectro autista é um transtorno?).

Depois dos anos gastos para conseguir passar em um concurso público, confesso que eu queria desacelerar só para curtir umas coisas que eu gosto. Sei lá, cumpro as horas de trabalho e daí chego em casa e vou ler livros, jogar videogame, estudar algo aleatório ou só não fazer nada. Lazer purinho. Eu tenho acesso a todas essas coisas, mas daí tenho que balancear com meu tempo e minha energia.

Os últimos 4 meses de 2025 me permitiram fazer isso, em certa medida. Trabalhar 6 horas por dia é uma maravilha! Deveriam normalizar (mas o sonho seria 4 horas por dia, sério, acho que com a tecnologia atual dava para organizar de forma que todas as necessidades sociais fossem cumpridas. Infelizmente existem bilionários mandando em tudo, daí tem gente que não tem vida além do trabalho). Entretanto, com o regime de 30 horas extras mensais, a coisa mudou de figura.

Sei que para alguém neurotípico, minha rotina atual seria mamão com açúcar. Mas eu não sou neurotípico. Meu trabalho exige muita exposição a muita socialização, muitos estímulos auditivos e visuais, e muita pressão (sempre tem algo por fazer, sempre tem emergências que exigem que eu troque a rotina de última hora). Eu dou conta? Sim, mas chego em casa muito cansado. Meu cansaço, para piorar, demora a aparecer enquanto cansaço. Eu não chego todos os dias zumbificado querendo dormir. Na verdade, eu chego elétrico, com coração acelerado, pensamento a mil.

Na segunda e na terça minha vida é acordar, ir para o trabalho, viver essa vida do trabalho, e chegar em casa a noite cansado demais para fazer outras coisas da minha vida. É tomar banho, me acalmar, e dormir. Às vezes consigo ler um pouco ou assistir alguma coisa, mas minha cabeça não relaxa tempo o suficiente para eu curtir. É um momento para me recuperar o suficiente para aguentar o próximo dia.

Na quarta-feira, eu trabalho apenas a tarde. Em tese tenho a manhã para viver a minha vida. A partir desta semana, este vai ser provavelmente o horário em que trabalharei no anteprojeto do mestrado, por exemplo. O problema é que o tempo efetivo para fazer minhas coisas é reduzida por alguns fatores:

  • Existe uma rotina de acordar, ir ao banheiro, fazer exercícios, tomar banho e tomar o desjejum. Quando eu termino isso, geralmente é 8h30min.

  • Todas as atividades que dependem muito de leitura em papel ou no computador (boa parte dos jogos que eu gosto, boa parte dos estudos, mexer com violino — nem tenho mexido com violino desde o ano passado) exigem que eu coloque as lentes de contato. Colocar e tirar as lentes de contato não é algo tão difícil assim, mas por motivos de autismo e alta sensibilidade tátil, para mim é um ritual muito cuidadoso. Geralmente, eu me esforço para colocar as lentes de contato 1x por dia e tirá-las 1x por dia, pois é um processo difícil. É como tomar uma injeção. Quando somos crianças, é uma experiência traumática. Daí a gente vai se acostumando a ponto de conseguir tomar a injeção com certa tranquilidade. Mesmo assim, não queremos tomar várias injeções em curto espaço de tempo. De preferência nos cuidamos para tomarmos injeções o mínimo possível. Colocar e tirar as lentes de contato, enfiando o dedo lá no meu olho, é como tomar injeção.

  • Idealmente, eu preciso almoçar antes de ir para o serviço. Vanessa tem me ajudado bastante deixando os preparativos do almoço prontos durante a semana (uma vez que ela fica em casa e eu que estou indo trabalhar, o inverso de quando nos casamos). Mas considerando que meu horário de entrada no serviço é 12h, eu preciso almoçar bem cedo. Depois do almoço não dá para fazer nada.

  • Na prática, se não acontecer nada que impeça minha rotina básica, eu tenho das 9h às 11h para minhas atividades. São 2 horas para viver minha vida.

Essas 2 horas de “viver minha vida” dita minha quarta e quinta-feira. A sexta-feira, atualmente, tem sido um alívio. Eu trabalho apenas de manhã na sexta, tendo meu horário de saída do serviço às 13h. Então chego em casa e posso almoçar, descansar, e quando dá umas 16h, eu já estou pronto para só viver. É quando começa mesmo meu fim de semana.

Daí tem sábado e domingo que são dias excelentes. E então segunda volta tudo.

O negócio é esse “viver minha vida”. Tem algumas categorias de coisas que eu quero fazer.

Primeiro tem as Coisas Inúteis que me Dão Prazer. Levei anos para poder me permitir a dar espaço para essas coisas, então não gosto de negligenciá-las. Aqui eu colocaria:

  • ler livros literários (atualmente, seguindo um hiperfoco em Brandon Sanderson, estou lendo “Caminho dos Reis”, que é um livro gigantesco. Estou em 30% do livro, o que equivaleria a alguns livros inteiros. Como leio no kindle, não tenho tantos problemas com a visão. Consigo ler sem as lentes de contato).

  • jogar videogame, e CARAMBA, TENHO MUITO JOGO LEGAL! Como não posso dedicar muito tempo da minha vida a jogos, deixei abandonados os jogos mais ociosos como Oxygen not Included e Victoria 3. Infelizmente são jogos em que 5 horas de jogo significa quase nada feito. Mas talvez eu ache uma maneira de encaixá-los na minha rotina de novo. Atualmente eu estou realizando meu sonho de Square Enyx com Final Fantasy VII: Remake Integrade e Kingdom Hearts III. Além disso, meu eu fã de história está se deleitando muito de ter vários Assassin’s Creed. Atualmente estou jogando Assassin’s Creed III, aquele que se passa na Revolução Americana. Muito bom controlar um indígena matando colonizador britânico. Muito satisfatório participar da Festa do Chá de Bosta, ops, da Festa do Chá de Boston (evento importantíssimo da independência dos Estados Unidos da América, aquele país de bosta que tá ferrando o mundo inteiro porque elegeram uma pessoa execrável como o pedófilo Donald Trump… De qualquer maneira, eu acho divertido jogar eventos históricos).

  • Assistir filmes. Mas confesso que é o que eu menos faço.

  • Jogar RPG de Mesa. Vou tentar procurar mesas online onde eu vou poder ser jogador, mas atualmente o jogar RPG de mesa tem sido planejar aventuras e convencer algumas pessoas próximas a jogá-las. Pois é, eu sou o Mestre/Narrador/Arquiteto/Sei-lá-qual-outro-nome. Hoje à tarde vamos jogar uma aventura em GURPS que eu criei. Bom, pelo menos eu assim espero.

Daí tem as Coisas Úteis que me Dão Prazer, porque eu tenho múltiplos interesses além de trabalhar e não consigo abandonar esses interesses sem ficar profundamente deprimido com minha própria vida:

  • escrever histórias. Atualmente eu tenho dado mais alguns passos na história sobre o gladiador que foi forçado a se casar com a Imperadora (sim, Imperadora e não Imperatriz) deste lugar inspirado no Império Romano, só que 100% matriarcal; que é também a história da Imperadora que consegue ver o futuro e decidiu pôr fim ao próprio império para construir uma sociedade sem classes, pulando o desenvolvimento do feudalismo e do capitalismo (essa história também tem muito drama familiar, é bem complexa). No mais, também estou esboçando uma versão original da minha fanfic de The Legend of Zelda (sim, eu que escrevi A Lenda de Link: a Triforce do Crepúsculo) e ontem eu criei um cenário de fantasia inspirado no período do Governo Geral do Brasil (séculos XVI e XVII) para escrever uma história de revolução ao estilo de Mistborn (do Brandon Sanderson).

  • tocar violino. Eu não treino violino há 1 ano e meio e nem troquei as cordas do meu violino ainda, mas ainda sinto falta de tocar.

  • estudar. Eu tive meu momento de aproveitar o curso Nós na Rede e estudei muito sobre a rede de atenção psicossocial, depois comecei a estudar escrita criativa vendo as aulas do Brandon Sanderson (origem do hiperfoco nos livros dele), queria muito continuar estudando história do Brasil, mas acho que vou ter que restringir o escopo dos estudos para fazer anteprojeto de mestrado.

Todas essas coisas levam tempo e eu não acho que tenho tempo o suficiente para fazer tudo nos momentos de folga. Quando eu efetivamente trabalhava apenas 6 horas por dia, estava até conseguindo. Mas pelo resto de 2026, eu não acho que vou.

Bom, ainda há esperança. Por causa de uma alta rotatividade profissional que aconteceu no fim de 2025 e início de 2026, eu sou o segundo psicólogo mais antigo do turno da tarde no CAPSIJ. Como a primeira psicóloga mais antiga prefere atender adolescentes e eu vi que me saio bem com crianças, posso tentar pedir para mudar meu horário regular de trabalho para a manhã. Sempre fui uma pessoa matutina, então trabalhar de manhã sempre me ajuda a aproveitar mais meus dias. Ainda vou ficar o dia inteiro na segunda e na terça-feira (ou em outra combinação de dias), mas pelo menos vou ter mais que 2 horas nos dias úteis em que ainda posso viver minha vida.

Meu maior medo, na verdade, é não conseguir gerenciar todas essas vontades, relações de cansaço/descanso e etc e perder a oportunidade de fazer o mestrado. Sério, nunca foi uma possibilidade tão alcançável. Se eu não conseguir, provavelmente vou me sentir culpado e talvez tenha uma fase meio depressiva de novo. Espero que eu consiga lidar com tudo!

Enfim, tinha mais coisas na minha cabeça que envolviam o estado de terror que os Estados Unidos de Donald Trump tão colocando no mundo com suas guerras intermináveis, uma notícia recente de intolerância religiosa acontecendo de forma bem tranquila em Belo Horizonte, e essas coisas que me fazem ter medo do rumo que a humanidade está levando. Mas escrever sobre mestrado e rotina realmente acalmou meu coração. Quando comecei a digitar, estava sentindo o início de uma taquicardia, mas agora estou me sentindo bem. Acho que vou ficar por aqui mesmo.

Até a próxima (mas saiba que eu não faço a menor ideia de quando será a próxima).

Como eu coloquei as atualizações no início do post, aqui vou compartilhar apenas algumas fotos que tirei andando pelas ruas de Uberaba em Dezembro 2025/Janeiro 2026

Teve esse Monster Truck da Monster aleatoriamente no supermercado Bahamas Mix da Nossa Senhora do Desterro.

Um dia eu estava indo para o trabalho e me debatei com esse girassol que brotou na rua.

Tem uns lotes vagos em frente a casa alugada onde eu morava e, num dia desses, encontrei esse pássaro bicudinho. Não sei qual é a espécie, mas achei diferente dos pássaros urbanos que costumo ver.

Boruto é uma farsa. Na verdade, depois do final de Naruto Shippuden, o Sasuke veio para Uberaba e abriu uma seguradora. Isso sim é um novo começo para o clã Uchiha.

Esse grafite tá no muro do CEMEA Boa Vista, o lugar em que a gente fazia hidroginástica DE GRAÇA. É muito fuzuê pra pouco namastê!

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